Quando a ira se sobrepõe à inteligência

Incrível como o esporte ensina e traduz sentimentos. Confesso que nunca gostei de lutas, nem tão pouco de discussões, quanto mais de luta livre em que tudo é permitido, mas, no último sábado, todo envolvimento em torno de dois homens que iriam se enfrentar me chamou a atenção.

Anderson Silva e Chael Sonnen protagonizaram semanas de puro desentendimento, provocações e angústias. Fizeram depoimentos escancarados e cheios de deboche, desdenharam e provocaram muita ira a fim de se enfrentarem apenas de calção, dentro de um espaço fechado, para se baterem até cansarem ou o sinal tocar.

O show de horrores, ou melhor, de artes marciais mistas como afirmou Dana White o diretor do espetáculo, foi acompanhado pelo mundo todo através da mídia que promoveu uma cobertura completa do antes, durante e depois. Tudo era tão incrivelmente provocado, que, uma das emissoras da cobertura televisiva do evento chegou ao cúmulo de transmitir a luta, com mais de meia hora de atraso, afirmando ser ao vivo o que a maioria já conhecia: o final. Ainda assim, acompanhamos em todos os jornais que houve recorde de audiência no “repeteco”.

Treinos durante os dias que antecederam a luta apresentaram esforços repetitivos, fome e muita dedicação dos dois atletas para o enfrentamento final. A necessidade de se perder mais de oito quilos em uma semana já apresentava a agressividade do esporte diante do físico de seus atletas e o show de vaidades se fez diariamente. Brasileiros foram ofendidos e macacos nos tornaram novamente. Até que o preparo físico e emocional do atleta brasileiro nos livrou mais uma vez da selva, e a inteligência prevaleceu à força. Sonnen tentando desesperadamente humilhar seu oponente em uma vitória “espetaculosa” errou o golpe que treinou exaustivamente aos olhos de todos e, caído, viu Anderson Silva reagir. Para orgulho de todos os “macacos” que assistiam, Anderson Silva teve a calma de reagir no limite necessário à vitória e vencendo chamou Sonnen, pediu aplausos aos brasileiros além de fazer um convite para o americano almoçar em sua casa.

Golpe duplo, triplo e final no oponente. Golpe que privilegia a inteligência e a paciência de saber esperar o momento certo para reagir dentro de seus princípios e valores.

A voz fina se fez mais forte do que qualquer soco giratório porque trouxe respeito e educação, e eu, que pela primeira vez em minha vida esperei acordada para assistir ao espetáculo de horrores, pude descansar com a sensação de que aquilo tudo era esporte e Anderson Silva um professor de boas maneiras.

Cassia Gargantini – Jornalista e Editora Chefe da Gargantini Comunicação Estratégica.

 


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