Como controlar o pânico ao entrevistar alguém absurdamente famoso

Correspondente da revista norte-americana “Rolling Stone “A repórter americana Jancee Dunn aprendeu lições importantes sobre como controlar o pânico diante de pessoas famosas no dia em que entrevistou Madonna.

Entrei no saguão, que tinha uma foto imensa dos olhos da Madonna na parede. Todos os homens no escritório estavam na última moda; as mulheres nem tanto. O recepcionista me pediu para sentar. Na minha cabeça, eu repassava as perguntas que tinha memorizado. Se você fica consultando uma lista de perguntas, acaba por quebrar o ritmo, e a conversa perde a naturalidade. A gente deseja ao menos criar a ilusão de que a entrevista é um bate-papo descontraído entre dois amigos.

Apesar disso, eu tinha de me lembrar que começaria a entrevista com perguntas sobre seu disco. Sempre, sempre formule as perguntas considerando os projetos do entrevistado, que são a razão pela qual ele está dando a entrevista. Se as perguntas não são apresentadas aberta e honestamente, o entrevistado ficará visivelmente irritado.

Uma secretária rompeu meu transe.

– Ooooooiiiii – disse ela. – A Madonna está pronta para atendê-la.

Perdi o fôlego, mas a segui pelo corredor, furtivamente secando as mãos nas mangas. Se pelo menos eu estivesse nos anos 1950 e pudesse usar luvas…O que foi que o editor me disse? Nada de papo-furado. Vá direto ao ponto. Dá para entender. Por que se preocupar com o blablablá? Nós duas tínhamos mais o que fazer.

Entramos no escritório, e – ai, meu Deus! – lá estava ela. Provavelmente eu já vira aquele rosto mais vezes do que o meu. Ela fareja o medo! Como um cão, fareja o medo! Cão! Medo! Farejando o medo! Corra, corra, corra! Apertei a mão dela e a olhei nos olhos. Naquele ponto, estava tão aterrorizada que meu organismo inverteu suas inclinações naturais e minhas mãos ficaram absolutamente secas.

– Olá – disse-me ela. Cordial, mas totalmente profissional. Como sempre ocorre com todos os famosos, à exceção de Clint Eastwood e Uma Thurman, achei-a menor pessoalmente: menos de um metro e sessenta. E, à época, grávida do pequeno Rocco. Era estranho vê-la com aquele barrigão, pois, embora fosse uma das mulheres mais fotografadas do mundo, quase não existiam fotos dela grávida, e com certeza esse fato não se tratava de coincidência. Bem, se ela não se parecia com a imagem que eu tinha dela, quase podia fingir que falava com outra pessoa. Isso aquietou meu desespero interior, de alguma maneira.

Hora de mostrar que eu não estava com medo. Tomar fôlego.

– Acabei de ler uma entrevista em que você reclama de ter espinhas depois de adulta – disse eu, rastreando o rosto dela.

– Qual é?! Você diz isso só para fazer a gente se sentir melhor.

Ousado, ou mesmo exagerado! Percebi um leve sorriso. Bom. Então, me aprumei para lançar a pergunta “te peguei”: me lembrei de que anos atrás ela queria indicar como roteiro de um filme o livro The Passion, de Jeanette Winterston, que eu também tinha adorado. Que fim essa história tinha tido? Assim que eu fiz a pergunta, ela ganhou vida, me dizendo que escrevera uma carta à autora, mas que nunca obtivera resposta, o que a deixara muito decepcionada. Só então emendei as perguntas sobre o novo álbum, à medida que ela, lenta e cuidadosamente, se acomodava na cadeira.

Eu a estava achando estranhamente vulnerável, e um pouco menos assustadora do que seria na época do livro Sex. Em determinado momento, uma seqüência maluca de todos os vídeos, filmes e eventos da vida dela percorreram espontaneamente minha mente num flash – lembra aquele clip em que ela era ruiva? Qual era mesmo? “Fever”, certo! -, e, com um esforço hercúleo, fui me livrando das imagens. Lá se foram mais quatro perguntas. Bom. Bom. Aí, aconteceu: enquanto ela falava, percebi que não conseguia me lembrar da próxima pergunta. Minhas anotações estavam no carro, e quando ela acabou de falar sobre como sua busca espiritual havia influenciado o álbum, estávamos prestes a ficar olhando uma para a outra no mais horripilante silêncio.

“Vai com calma”, disse a mim mesma. “Solte umas perguntinhas leves que geralmente você guarda para emergências, quando os entrevistados não param mais de olhar para o relógio.” Em geral, se for a primeira vez que as celebridades ouvem tais perguntas, elas gostam de respondê-las, e você consegue evitar a indesejável resposta ensaiada. Ninguém quer responder pela milionésima vez sobre suas influências musicais, ou sobre como o álbum mais novo difere do anterior. Em vez disso: No que você pensa antes de adormecer? Quando você passou a ver seus pais de outra maneira? Que cheiro o faz voltar à infância? O que seus amigos fazem para irritá-lo? Quando foi a última vez que você se sentiu realmente contente?

Eu lancei uma das boas (Qual foi seu pior trabalho na época do colégio?) para ganhar algum tempo até que a outra pergunta voltasse à minha mente. Ela respondeu sem pestanejar que era fazer faxina, que era nojento, tinha de limpar privadas dos garotos que freqüentavam a mesma escola que ela. A partir daí fui levando a entrevista com mais algumas perguntas sobre o álbum. Quando o fim da entrevista começava a despontar, tentei provocar com uma das velhas perguntas que eu e todas as minhas amigas sempre quisemos fazer: Qual foi o último filme que você alugou? (Na época, tinha sido o último filme da série Sexta-Feira, de Ice Cube, porque era a vez de Guy, o marido, escolher.) Você cozinha em casa? Não, mas ajudava Guy, acrescentando “acessórios” nas saladas.

– Acessórios? – pergunto, espantada. – De que tipo, cinto e luvas? – Olha, a Madonna está rindo!

Mudamos o assunto para a gravidez. Ela disse, consternada, que o médico lhe proibira de fazer ginástica, e que não poderia sair, ou usar roupas legais, ou dançar, e ela se sentia uma “vaca domesticada”. Eu acenei com a cabeça, demonstrando minha solidariedade, fingindo ser a amiga e confidente, como ela fizera com Sandra Bernhard, em Na Cama com Madonna, quando a atriz dissera que não havia mais ninguém para sair com ela, porque já tinha saído com todo mundo. Inclinei-me e lhe perguntei algo que sempre tive curiosidade de saber: Alguma vez na vida ela já havia se sentido insegura? Ela raramente expressava qualquer tipo de vulnerabilidade.

– Eu me sinto insegura a cada cinco minutos – disparou. – Do que você está falando? – Ela confessou que, na situação de gravidez em que se encontrava, entrava em pânico apenas ao olhar para o espelho.

Eu pressionei, porque queria saber como ela se sentia antes de estar grávida. Digamos, quando encontrava uma foto de uma ex do namorado. Ela fazia comentários maldosos? Ela respondeu que passava por todo um processo:

– Primeiro, eu digo: “Nossa, ela é magra e bonita” – riu. – Em seguida, penso: “Ah, mas eu sou eu”.

Que Deus a proteja! Houve uma leve batida na porta. Era a relações-públicas. Eu me lembrei de que havia algo mais que tinha de fazer. Minha amiga Susan, que trabalhava com decoração, tinha me pedido um relatório completo sobre o banheiro da Madonna. Eu não podia decepcioná-la. Além disso, também queria saber como era lá dentro. Dei uma olhada ao redor. Nenhum banheiro. Devia ficar do lado de fora. Outra batida na porta. Era minha deixa.

– Muitíssimo obrigada – respondi, juntando minhas coisas rapidamente e retribuindo o aperto de mão firme da estrela. Seja breve, sorria, não fique tagarelando. E nada de fotos ou autógrafos – você nunca deve pedir essas coisas como cortesia profissional. Pelo menos finja que estão no mesmo nível.

– Posso usar a toalete? – perguntei à assistente, apontando para a porta perto do escritório, onde se lia “WC”. Entrei como um furacão e abri a torneira, enquanto fazia um inventário do local. Um vidro de perfume Fracas, anotado. Um tipo de spray facial que você compra na loja de produtos naturais, água com essência de gerânio, da Tree of Life. Algum tipo de leitura? O Livro de Bolso do Hipocondríaco. Huummmm. Interessante. Loção facial La Mer. Anotado, anotado e anotado.

A assistente me esperava para me acompanhar até a recepção.

Caminhei a passos largos, triunfante.

– O que você achou? Ela não é o máximo? – a assistente perguntou.

– O que você achou dela? – perguntou o recepcionista. – Totalmente demais, não é?

– É mesmo – respondi, tentando, sem conseguir, não parecer uma fã inveterada. – Ela é divertida, mas tem um lado doce, também. E não deu respostas programadas, realmente pensou para responder.

– Nesse momento, meus joelhos começaram a tremer. – Posso me sentar um pouco? – perguntei. – Parece que vou desmaiar. – A assistente concordou com a cabeça.

– Acontece às vezes – disse o recepcionista. – Acho que vou pegar uns sais aromáticos e deixar por aqui.

Momentos depois, conforme eu tropeçava em direção ao carro, o ciclo se completava. Tudo sempre terminava comigo na marcha da vitória, com o seguinte pensamento: “Eu tenho o melhor trabalho do mundo”.

A euforia durou precisamente o tempo de escrever a matéria. E foi alarmante descobrir que o Calms funcionava perfeitamente com a maioria dos astros, mas não com os cinco estrelas. O motorista me olhou pelo retrovisor e perguntou:

– Prefere monan ou fleen?

Eu fingi que pensava por um momento, e então respondi:

– Vamos tentar o fleen – sem ter a menor idéia do que isso significava.

 


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