A Banana de Neymar: uma ação oportuna ou oportunista?

Neymar: (imagem:reprodução/Instagram)

“Daniel Alves comeu a banana como quem engole o racismo”. A manchete do jornal espanhol El País é emblemática. O jogador brasileiro reagiu à ação racista de uma maneira inteligente, com uma mescla desconcertante entre o desprezo e a ironia.

O fato aconteceu durante a partida entre Barcelona e Villarreal, pelo Campeonato Espanhol, quando o lateral se preparava para bater um escanteio. A torcida atirou a fruta em campo, mas ao invés de esbravejar ou levar a banana até o juiz, o jogador simplesmente a descascou e devorou antes de dar prosseguimento ao jogo. 

A iniciativa ganhou rapidamente o apoio do público nas redes sociais. Em seguida, o atacante Neymar, companheiro de clube de Daniel Alves, deu o start para o movimento #somostodosmacacos nas redes sociais, que agora se sabe, foi uma campanha minuciosamente arquitetada pela Loducca, e que estava apenas esperando para sair da gaveta e fuzilar o preconceito com a ajuda do arsenal de fãs e o midiatismo da estrela de Neymar. Bingo!

Por um lado, com uma ideia simples e a força de um ídolo do futebol, a campanha cumpriu rapidamente o seu objetivo de “viralizar” e provocar inúmeras discussões sobre o delicado tema do preconceito racial.  Em pouco tempo a hashtag já estava no trending topics mundial. Além de toda mídia espontânea em diversos veículos e plataformas da mídia, a causa foi abraçado por celebridades como Luciano Huck, Ana Maria Braga e até a presidente Dilma Rousseff.  

Guga Ketzer, sócio da Loducca, garantiu ao site da revista Veja que a atitude de Daniel Alves não foi combinada, mas foi a deixa perfeita para a campanha que foi idealizada duas semanas antes pela Loducca e por Neymar. Ketzer também disse que o fato de ter uma agência por trás da ação não tira os méritos e o brilho de toda a repercussão gerada pelo movimento. “O conjunto que envolve ele comendo uma banana e o Neymar se manifestando, criando um movimento, fez a discussão atingir um patamar absurdo, com repercussão até mesmo na Presidência da República. As pessoas espontaneamente se envolveram e isso é o que importa. Tentar desmerecer o movimento pelo fato de ter uma agência por trás é tão preconceituoso quanto o torcedor que joga a banana”, defendeu.

Por outro lado, a julgar pela punição recebida pelo torcedor do Villarreal, que é sócio do clube, inclusive, e que foi banido para sempre dos jogos do “Submarino Amarelo”, fica difícil acreditar que a reação de Daniel Alves não tenha sido espontânea. O que a Loducca fez foi aproveitar a oportunidade. Cabe então discutir se o timing foi acertado. Nem tanto, de acordo com a opinião do consultor de marketing e gestão esportiva Amir Somoggi. “A ação seria oportuna se tivesse sido criada espontaneamente. A partir do momento em que houve um planejamento de duas semanas e a espera do gancho de um racista, a meu ver foi oportunista. Para piorar, acho que a mensagem foi mal escolhida e ainda passou uma comunicação de bom humor com algo sério. Infelizmente perdemos a chance efetiva de criar um ambiente próximo da Copa para enfrentar o racismo como se deve, com seriedade, força e mensagens adequadas a seriedade do tema”.

Já o jornalista, doutor em comunicação e professor pelo Mackenzie, Anderson Gurgel, também autor do livro Futebol S/A – A economia em campo, enxerga outro lado no debate. “Acho que a questão principal é: a Loducca está com o Neymar e viu uma oportunidade para ativar a sua campanha que já estava pronta. Ainda que tudo tivesse sido armado, mesmo o ato do Daniel Alves, qual seria o demérito disso? Se uma das finalidades da comunicação, de maneira geral, é o compromisso com as questões sociais, não é porque não é espontâneo que não tem valor. O brasileiro tem uma dificuldade de se relacionar com o sucesso e a exposição. É preciso buscar cada vez mais o debate de ideias. A midiatização de temas como esse é essencial”, opina.

A discussão é válida e deve se estender por mais alguns dias. As opiniões também continuam divididas com relação à relevância ou oportunismo da ação. Apenas um fato é conclusivo: a propaganda é realmente uma arma poderosa para discutir um assunto tão delicado e repugnante como o racismo, onde quer que seja.

Por Renato Rogenski

Fonte: adNEWS

 


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s