O jornalismo cultural na era das mídias sociais

Por Fabio Gomes

Com o advento das redes sociais, os artistas (em especial os da música) passaram a se comunicar diretamente com seu público, não necessitando mais da antiga “ponte” que o jornalismo cultural representava. Este é o tema central de um texto que escrevi no ano passado, intitulado Caiu na rede, virou social, saído primeiro no blog Roraima Rock’n’Roll, e republicado aqui. E também a ideia principal do artigo Tribalistas não precisam de jornalismo, escrito por Pedro Varoni e publicado no site Observatório da Imprensa em 15 de agosto deste ano.

Varoni se referia à live que o supergrupo formado por Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte fizera no Facebook, sem aviso prévio, na noite de 9 de agosto. No dia seguinte, anunciaram o lançamento de um EP no inédito formato Hand Album, criado em dois dias a pedido de Marisa por engenheiros brasileiros com suporte de colegas europeus e norte-americanos do Facebook e Spotify. O formato visa proporcionar a quem ouve um álbum no smartphone uma experiência similar à de se ouvir um CD físico. Varoni também destaca a queixa de Nando Reis, ao participar do programa de Pedro Bial em 19 de junho, dando conta de que o”caderno de cultura do maior jornal de São Paulo” não dedicara uma “única linha ao trabalho” – no caso, o mais recente CD de Nando, Jardim Pomar (2016).

Não encontrei dados sobre vendas (ainda se fala nisso??) ou audições do CD de Nando, mas é evidente que, mesmo que um jornal não tenha falado do disco, outros falaram e as próprias redes sociais do artista se encarregaram de espalhar a notícia (apenas no Instagram ele tem 403 mil seguidores). Sobre os Tribalistas, o próprio Varoni refere que a live foi vista por 5,62 milhões de pessoas em 52 países. Isto o leva a afirmar que “As novas formas de circulação são mais democráticas e não precisam do antigo modelo de mediação que dependia de critérios eletivos dos jornalistas culturais, quando não do poder econômico das gravadoras” – conclusão que endosso inteiramente. Já falei certa vez que no antigo sistema gravadoras e jornalismo cultural (mais aquelas que este, evidentemente) decidiam “quem podia” ser artista. Hoje a internet possibilita que todos possam mostrar o seu trabalho sem intermediários.

Embora eu tenha um blog com o nome de Jornalismo Cultural, creio que o espaço onde mais exerci de fato o que entendo como jornalismo cultural foi o Som do Norte, de sua criação em 2009 até 2015. Comecei o ano retrasado parando de postar agenda de shows no blog, já que a audiência dessas postagens era pequena; as pessoas hoje se atualizam sobre shows em sua cidade através das redes sociais. Decidi então investir em entrevistas com músicos, porém lá pro meio do ano comecei a ter algumas recusas. Entendi então que, como disse Varoni no trecho citado acima, o antigo modelo de mediação representado pelo jornalismo cultural “clássico” não era mais necessário nos tempos atuais. Mais ou menos na mesma época, em 30 de julho de 2015, o cineasta Jorge Furtado declarou à TV Carta, a propósito de seu filme O Mercado de Notícias, que “a imprensa praticamente perdeu o sentido” de existir. Eu não iria tão longe, mas o fato de eu ser um jornalista pode estar influindo na minha percepção…

Evidentemente eu não tenho como dizer para onde o jornalismo cultural como um todo deverá ir, ou tentar prever o que vai acontecer. O que posso é decidir o que vou fazer a partir do quadro atual. Nesses últimos dois anos tenho priorizado meu trabalho ligado às imagens, sejam fixas (Fotografia), sejam em movimento (Cinema), com o jornalismo cultural presente em vários destes trabalhos, como o projeto As Tias do Marabaixo, por exemplo. Quanto ao jornalismo propriamente dito, tenho preferido escrever artigos como este tanto para meus blogs quanto na coluna do Digestivo Cultural, ao lado da republicação de textos meus escritos em épocas diversas e que nunca postei em meus próprios blogs. A quantidade de acessos não chega a ser muito expressiva, mas de todo modo creio que estou oferecendo um conteúdo menos perecível do que fazia quando minha prioridade era postar agenda de shows – em sua maioria, estes posts jamais voltavam a ser acessados após a realização do evento.

Texto publicado em Digestivo Cultural.

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